Terça-feira, 26 de Outubro de 2004

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: MEU AMOR,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus...
publicado por In Loko às 05:50
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5 comentários:
De rui a 28 de Abril de 2005 às 19:43
Eugénio de Andrade,
Grande poeta português!!!
(o seu a seu dono)
De Maria Branco a 4 de Novembro de 2004 às 01:11
Dolorosamente belo! Um dia temos de saber dizer adeus, não é? Mas, é tão dificil...
De Bitolas a 31 de Outubro de 2004 às 17:57
Coloca o nome do autor man !!!
De amita a 29 de Outubro de 2004 às 00:25
Que bonito poema feito de palavras gastas e que tanto dizem. Bjos amigo
De Andréa Motta a 27 de Outubro de 2004 às 12:57
Sempre resta algo a ser dito! Tanto o é..que muito foi dito neste lindo poema ;) Beijos doces com carinho.

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