Segunda-feira, 16 de Junho de 2008

Barco - Meu Olhar

sol_lanterna.jpgNa linha do horizonte lá ao longe onde o sol se deita no mar, na água calma e cintilante uma pequena sombra deslizava devagar deixando-se desenhar pelos risos coloridos do sol que ainda se mostravam.Aquela pequena silhueta intrigava-me, parecia-me familiar, talvez um pequeno barco que pudesse ter visto anteriormente.E das muitas gaivotas que por ali esvoaçavam pedi a uma que perto de mim passou, que me fizesse o favor de ser os meus olhos e fosse indagar, espreitar o que era realmente aquela sombrita tão cheia de graça que tanto me atraía…Amável e amiga lá foi para meu contentamento… voltando em breve disse-me… «são reflexos de luz em formas ovais por fora e circulares por dentro»... “Humm pensei eu ainda mais intrigado com aquele esboço do desenho que me deu”. Pela descrição que me fez, se não era um pequeno barco não entendi o desenho… não estava a perceber que sombra poderia ser aquela forma oval tão graciosa e cintilante que se diluía no andar lento das ondas…Fiquei por longo tempo a contemplar o mar no seu dançar… e a matutar no que seria aquela minorca mancha lá ao longe…Até que, e para espanto meu, a gaivota amiga desceu do céu e pousou no areal… e com mestria nas areias o seu bico escreveu… ‘Aquele reflexo, ou sombra como lhe chamas, é algo de ti’… e foi-se sem mais nada dizer!...Mistério pensei… mas que mistério este de algo meu andar a deambular lá tão longe e eu sem saber?... Especado e entristecido no rochedo, entre olhares para a mancha longínqua e os dizeres na areia deixados pela gaivota ia mergulhando no abstracto… e eis que num ponto iluminado do meu ser esta frase na mente me apareceu… “ Era o meu olhar que tinha lá deixado ontem quando à tardinha por ali passei e deslumbrado pelo pôr-do-sol resplandecente esqueci-me de o recolher!”…Quantos olhares meus não andam perdidos por aí, não sei… Sei que sempre que olho para algo de belo e bonito lá deixo olhares meus como selos pelas atracções e encantos que me dão!...Nos vazios do cimo das montanhas e serras quando desprendo o olhar e o deixo solto em voos sem rumos em contemplações sem fronteiras saboreando as escadas dos declives até ao chão… deixo sempre olhares que não volto a recolher…Nas noites sem tempo à beira-mar, passeando sob o manto dos piscares dos brilhos das estrelas e o rosto da lua sorridente e levado pelos cheiros da maresia e canções do mar de embalo… muitos olhares deixo sem os recolher…Nas pinturas que o sol me dá em qualquer altura mas muito especialmente no raiar do dia, em que desnuda as sombras da noite e as pincela de cores vivas, espalhando tinta colorida por todo o lado criando lagos e rios balsâmicos no fresco do amanhecer é de uma louvada sorte de sentires indescritível… e olhares deixo sem os recolher…Nos olhos das crianças, diamantes enormes que me hipnotizam nos seus brilhares inocentes e puros a que me submeto sem pestanejar aos seus fascínios, são nichos em que vale a pena adormecer e sonhar sem medos… e olhares, tantos, lhes deixo sem recolher…Nas mulheres com quem me cruzo e cruzei… rostos e almas e abrigos… são templos belos de dádivas, de partilhas de amor, de carinhos e sensualidades, são a outra parte de mim, são a continuação de mim em deslumbres sem palavras… são a outra metade de mim que nos faz unos… e tantos olhares lhes dou sem recolher!...Carlos Reis(Imagem: Web)
publicado por In Loko às 06:30
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8 comentários:
De aroma a 3 de Julho de 2008 às 20:34
Ouvi aqui, palavras com asas a navegar.

De Beatriz a 30 de Junho de 2008 às 21:06
Amigo, não encontrando uma nova postagem, presenteei-me com uma releitura deste texto (já tive oportunidade de registrar aqui a minha admiração por ele) e fiquei pensando em quantos olhares eu também já deixei pelos caminhos percorridos. Veio-me, então, um súbito desejo de que 'meus olhares' não estivessem sozinhos na meditação de tudo aquilo que já vivi, mas que os olhares de quem me acompanhou nessa contemplação pudessem também captar, vez em quando, a beleza que um dia descobrimos em tantos momentos vividos a dois. Grata, mais uma vez, por propiciar-me lembranças nesta tarde que já se vai, para dar lugar a uma noite que, certamente, se prolongará em ternas recordações.

Ficam flores e estrelas para enfeitar a tua noite, um beijo no coração, e sorrisos para enfeitar a tua semana.
De isa&luis a 27 de Junho de 2008 às 11:45
Amigo Poeta,

tu encantas...desenhas e pintas as emoções com o teu olhar...hino à vida! Adorei!

beijinhos

Isa
De Amita a 27 de Junho de 2008 às 09:54
Meu querido Amigo
Eu sei, também o sinto. Há algo de nós que lá fica e, ao mesmo tempo, nos penetra e nos permanece pela infinitude do tempo. Um olhar que bebe lento e nos canta, bem cá dentro. É essa riqueza e luminosidade que transparece no teu texto poético.
Com muito carinho, um bjinho grande e um lindo fim-de-semana

De Beatriz a 23 de Junho de 2008 às 13:28
Uma das páginas mais bonitas que já tive oportunidade de ler aqui na blogosfera. Um texto sensível onde a poesia deixa em nosso olhar a sua marca de ternura e beleza. Simplesmente lindo!

Flores, sorrisos e estrelas, na tua semana!
De Secreta a 20 de Junho de 2008 às 11:10
Belo este teu texto. E , inevitavelmente me deixa a pensar ... :)
Beijito.
De maria a 18 de Junho de 2008 às 00:09
Rendo-me à beleza dos teus olhares, e apetece até navegar no barco deles, recolher-me neles.
Lindo este teu post, de uma simplicidade encantadora, de sentires bonitos, de amares profundos. Gostei, gostei muito. Bj.
De catxinha a 16 de Junho de 2008 às 16:32
O meu olhar prende-se ao mar, aos amigos, às pessoas fantásticas, à Natureza... a tudo o que me faz feliz!
Amei o post. Beijos.

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