Terça-feira, 20 de Abril de 2010

Eu, Tu e a escrita

GustaveCourbet.jpg

Continuo a gostar bastante de ter folhas de papel vazias e soltas à minha frente.
E no branco deixar o lápis fluir na escrita como lhe aprouver. Entrar no jogo das letras que se juntam, e brincam, para formar palavras em desenhos que transmitem sentires e emoções e pensamentos como o pintor faz às suas telas em branco… como o escultor faz na sua massa disforme… e criar em total liberdade muito de mim, que se alimenta de bocados de memórias de ontem, de hoje, e do agora!
É um exercício belo o acto da escrita assim… é quase um puro acaso… é um puzzle desconhecido… o corpo do texto vai aparecendo por ele próprio como se ganhasse vida em cada letra que se junta ao jogo.
E neste respirar que emerge de mim sempre que acrescento alguma palavra, o texto «arregala os olhos» como novo sopro de vida… e elucida-se!

Sempre que olhares os brilhos da lua ou o sol desfeito em cores que queimam e me pressentires saberás porque existo.
Fui moldado por qualquer motivo para te acompanhar, até temos o mesmo reluzir nos olhos, já viste?
Mesmo não estando juntos naqueles momentos em que chego mais tarde, olhas o céu e ele dir-te-á onde estou - estou nos teus olhos e na paixão indivisível de nós.

Olhei o sol a pôr-se e estava deslumbrante, enorme, imenso naquele vermelhão que ofusca os olhos, abraçando o mundo na sua vaidosa grandiosidade, e eu senti-me vibrar nesta partilha de poderio… desencadeando fulgores em mim, no sangue, compincha de tresloucadas correrias no corpo, e pensei em ti!
Tu sabes como te adoro mulher amante e companheira, mas também sabes como preciso do ar da rua.

Perder-me sem rumo nestes frescos dos espaços abertos, beber o sussurrar deste vento que alvoraça o meu rosto e acalma o frenesim deste meu espírito sempre inquieto e pronto para aventuras, rebeldia de mim em constantes anseios por redescobertas, suaviza o ritmo dos dias repetitivos que me cansam e torturam-me como só eu sei!

Nem sempre consigo resistir à tentação do mar e dispo-me… em muito de nu, enfio-me na água e perco muito da minha identidade de roupa vestida, e vou, vou até algum rochedo em abraços cúmplices com as ondas que me sacodem no seu corpo de alegria.
Sentar-me num rochedo bem dentro do mar é das sensações mais extasiantes e deliciosas que conheço, é unificar-me às partículas mais simples e intensas que existe no universo… é como deixar muito a forma humana nestas alturas e tornar-me matéria viva contemplativa, criadora do cosmos… podes crer minha querida tantas vezes já me senti um pequeno deus.

Tal e qual quando em miúdo, bem dentro das entranhas dos mares no oceano aberto, deserto de água aos meus pés e céu imenso nos meus olhos, falei e falei com o ar como se obtivesse respostas num «tu lá tu cá» como amigos de longa data, numa transcendência etérea abismal…
É tão intenso e persistente este sentimento como o mistério adulador dos cantares nos silêncios ondulantes, que se entranham bem fundo na alma, e o Celestial engravidasse, unicamente, para que fosse a minha terra.

São elos tão fortes entre mim e o ar da rua e a água, que te peço que me perdoes pelas minhas ausências.
Perdoa-me os atrasos nos dias em que demoro muito a despedir-me da lua.
Perdoa-me os longos minutos em que me anseias e eu continuo a vaguear à toa.
Perdoa-me os abraços e beijos que te devo quando devaneio nas pluralidades da noite.
Perdoa-me este meu jeito descuidado quando não te dou a atenção que mereces e precisas.
Mas NUNCA me perdoes se me esqueço de te trazer pedaços do sol, pedaços do mar, pedaços da lua bem dentro de mim, para tos dar por inteiro à noite, no chão quando te toco, nas vontades de nós, na mais bela e deslumbrante dança dos corpos!

 

Carlos Reis

publicado por In Loko às 11:04
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